O acesso ao oxigênio medicinal tem se consolidado como um indicador crítico da qualidade e da equidade dos sistemas de saúde em todo o mundo. Recentemente, a Fiocruz liderou, nas Américas, um estudo global coordenado pela Organização Mundial da Saúde que analisou a disponibilidade de oxigênio e suporte respiratório em pacientes hospitalizados com Covid-19 em 23 países de baixa e média renda. Este estudo, publicado na The Lancet Global Health, revela que o oxigênio vai além de um insumo hospitalar, servindo como marcador estrutural das desigualdades sanitárias e influenciando diretamente a mortalidade hospitalar. Ao longo deste artigo, discutiremos os principais achados da pesquisa, a relevância estratégica do oxigênio medicinal e as implicações para políticas de saúde mais resilientes.
O estudo global incluiu mais de 53 mil pacientes triados em 56 centros. Na América Latina, a Fiocruz se destacou como o maior centro de recrutamento, com 601 pacientes triados e 166 incluídos na coorte final. A pesquisa não apenas mapeou o acesso ao oxigênio, mas também correlacionou a infraestrutura hospitalar disponível com os desfechos clínicos. A atuação do Centro Hospitalar do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz, especialmente de sua equipe de fisioterapia, foi crucial para garantir suporte respiratório de alta qualidade, demonstrando a importância de integrar recursos humanos especializados com tecnologia avançada.
Os resultados do estudo reforçam que a disponibilidade de oxigênio medicinal é um determinante central na resiliência de um sistema de saúde. Em regiões com infraestrutura limitada, como partes da África, a mortalidade hospitalar em 30 dias atingiu quase 38%, enquanto nas Américas, onde a Fiocruz conduziu o estudo, a complexidade do atendimento foi significativamente maior, com uso intensivo de ventilação mecânica invasiva e elevada densidade de profissionais de saúde. Esses dados evidenciam que o oxigênio não é apenas uma questão clínica, mas também um reflexo das disparidades estruturais entre países e regiões.
Sob a liderança de Mônica Cruz, coordenadora do Centro Clínico do INI/Fiocruz, e Valdiléa Veloso, vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico, a instituição brasileira contribuiu para estabelecer uma base científica robusta que subsidia decisões globais. As evidências geradas fornecem subsídios para que governos e organismos internacionais priorizem dispositivos médicos essenciais e criem agendas de pesquisa voltadas para emergências sanitárias futuras. Em outras palavras, garantir o acesso universal ao oxigênio medicinal é tão estratégico quanto investir em vacinas ou em protocolos de atendimento clínico.
A análise global também revela uma realidade preocupante: aproximadamente 60% da população mundial não tem acesso regular a oxigênio de qualidade. Essa escassez afeta não apenas pacientes com Covid-19, mas qualquer pessoa que dependa de suporte respiratório, como casos de pneumonia, doenças crônicas ou intervenções cirúrgicas complexas. A disparidade no acesso evidencia a urgência de políticas públicas que considerem o oxigênio medicinal como prioridade estratégica e não apenas como insumo hospitalar secundário.
Além do impacto clínico imediato, o estudo ressalta a importância do planejamento logístico e da formação de profissionais especializados. A experiência da Fiocruz mostra que, mesmo em cenários de alta demanda, é possível otimizar recursos e garantir atendimento eficiente quando há coordenação entre pesquisa, tecnologia e prática clínica. A integração entre ciência e gestão hospitalar se torna um modelo para outras regiões, especialmente em países de baixa e média renda que enfrentam desafios estruturais semelhantes.
Em termos de inovação, o estudo reforça a necessidade de soluções adaptáveis e sustentáveis. A expansão da infraestrutura de oxigênio, a implementação de protocolos clínicos baseados em evidências e a capacitação contínua de profissionais são medidas essenciais para fortalecer sistemas de saúde frente a crises. A Fiocruz, ao liderar o esforço nas Américas, demonstra que instituições científicas podem exercer papel estratégico não apenas na pesquisa, mas também na transformação de políticas de saúde e na redução de desigualdades.
Concluindo, o acesso ao oxigênio medicinal emerge como um eixo central na construção de sistemas de saúde mais equitativos e resilientes. O trabalho da Fiocruz evidencia que políticas bem fundamentadas, combinadas com ciência de ponta e mobilização de profissionais especializados, podem reduzir desigualdades e salvar vidas. Mais do que um insumo hospitalar, o oxigênio se configura como um indicador de justiça social, inovação tecnológica e planejamento estratégico. Garantir sua disponibilidade é, portanto, um passo essencial para fortalecer a saúde global e enfrentar futuras crises sanitárias com eficácia.
Autor: Roman Tikhonov