Felipe Rassi esclarece que, ao observar o mercado de NPLs (Non-Performing Loans) no Brasil, o ponto mais útil é separar inadimplência como indicador macro de cessão de créditos como dinâmica de capital, porque ambos os fenômenos se cruzam, mas não se confundem. Nesse sentido, o volume de créditos estressados negociados informa apetite, estratégia e reorganização de balanços, enquanto a taxa de inadimplência ajuda a entender pressão e tendência de formação de novos estoques.
Os números de mercado só agregam valor quando são interpretados junto com processos, como critérios de elegibilidade, governança de dados e capacidade de execução. Por conseguinte, projeções não devem ser tratadas como promessa, e sim como sinal de ciclo, com efeitos diretos na recuperação de ativos e no ritmo de formação do mercado secundário.
Volume cedido e o que ele indica sobre o ciclo
Em 2025, a Recovery divulgou que o mercado de venda de carteiras inadimplentes atingiu R$ 34 bilhões cedidos, acima dos R$ 28 bilhões de 2024, indicando avanço relevante no volume transacionado. Nessa perspectiva, o número aponta um mercado mais ativo, no qual a cessão de crédito é usada como instrumento de gestão de risco e de capital, com espaço para compradores especializados assumirem execução e cobrança.
Já a Deloitte, em pesquisa recente sobre cessão de créditos, registrou R$ 30,2 bilhões de volume cedido em 2025 e projetou expansão expressiva para 2026, mencionando estimativa de crescimento de 73% e projeção de cerca de R$ 15 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2026. Sob esse olhar, a diferença entre fontes não é um problema em si, pois metodologias podem variar, mas o recado central é convergente, o ciclo segue aquecido e tende a manter o mercado secundário em evidência.
Projeções e variáveis que costumam sustentar o mercado
Projeções ganham consistência quando se conectam a fatores observáveis, como custo do crédito, política monetária, comportamento de inadimplência e demanda por liquidez. Desse modo, em ambiente de juros elevados, a gestão de carteiras tende a ser mais seletiva, pois o custo de carregar risco e provisões pesa mais na estratégia do credor. Além disso, ciclos de juros alteram tanto a originação quanto o comportamento de renegociação, o que influencia o fluxo de formação de crédito não performado.

Segundo Felipe Rassi, a leitura das projeções deve considerar também a capacidade de execução das carteiras, pois volumes maiores não significam conversão automática em recuperação de ativos. Logo, variáveis como qualidade de dados, cadeia de titularidade demonstrável e memória de cálculo rastreável influenciam o que o mercado consegue transformar em caixa, em vez de manter como expectativa.
Inadimplência como pano de fundo e seus limites
O Banco Central divulgou taxa de inadimplência de 5,5% em janeiro, apontada como maior patamar desde 2017, segundo notícia baseada em informação do próprio BC. Nesse contexto, o dado sinaliza pressão sobre a qualidade do crédito e ajuda a entender por que carteiras podem ganhar relevância nas mesas de cessão, sobretudo quando instituições buscam reorganização e foco em originação.
Por outro lado, inadimplência não equivale a “volume pronto para cessão”. Conforme indica Felipe Rassi, o que vira transação depende de critérios econômicos e jurídicos, como precificação por recuperabilidade, custo de execução e grau de contestação esperado. Portanto, o indicador macro serve como orientação do ciclo, porém o mercado de NPLs é definido pela capacidade de estruturar ativos e reduzir incerteza.
O que o volume de transações exige em termos de processo
Mercado em expansão tende a aumentar a exigência por governança e padronização. À vista disso, controles de versão, critérios de elegibilidade e auditorias por amostragem deixam de ser “boas práticas” e viram condição para operar com escala. Quando a carteira chega com cadastro frágil, saldo sem data-base ou lacunas de titularidade, o tempo de saneamento cresce e o desconto tende a refletir esse custo, pois a recuperação de ativos perde previsibilidade.
Por fim, Felipe Rassi observa que o volume cedido e as projeções só se tornam úteis quando são lidos como sinal de ciclo e traduzidos em procedimento: seleção de ativos, governança de dados e regras claras para tratar inconsistências. Nesse sentido, o panorama do mercado brasileiro indica crescimento, porém a diferença competitiva tende a permanecer no detalhe executável, o que pode ser provado, versionado e cobrado com consistência.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez